Cultura Alimentar é resistência!

Uma população em conexão com o seu território, consciente de sua biodiversidade, saberes e práticas e conhecedora dos seus sistemas agroalimentares possui as ferramentas necessárias para a sua sustentabilidade e o acesso a alimentos bons, limpos e justos.

Existir é um desafio para os povos originários do Brasil. No cenário atual, enfrentam conflitos e ameaças constantes e sentem diretamente os efeitos devastadores do avanço descontrolado do modelo de desenvolvimento produtivista e depredatório, que vem modificando radicalmente seus modos de vida. 

Diante dessa perspectiva de vulnerabilidade e considerando o relevante papel da juventude na concepção de narrativas inovadoras e regenerativas, o projeto “Território e Cultura Alimentar no Ceará” vem atuando junto ao Povo Tremembé da Barra do Mundaú, no município de Itapipoca, na redescoberta das raízes do gosto e dos modos de fazer dessa comunidade tradicional do nordeste brasileiro.

A chegada do Slow Food Brasil e do AKSAAM com o projeto neste período de pandemia nos possibilita olhar com mais atenção para o nosso território e os conhecimentos presentes em cada aldeia e família Tremembé, além de nos despertar um desejo de preservar e fortalecer esses saberes tradicionais da nossa cultura.”  (Mateus Tremembé, jovem liderança indígena e articulador local do projeto)

A construção do inventário participativo da cultura alimentar do Povo Tremembé da Barra do Mundaú, localizado a cerca de 155 km de Fortaleza, capital do estado, em um período crítico da pandemia do covid-19, expressa o interesse genuíno e a motivação, principalmente, de jovens e mulheres das aldeias que compõem o território, em resgatar e salvaguardar seu patrimônio imaterial como forma de valorização e fortalecimento da sua identidade.

De fevereiro a maio deste ano aconteceram quatro encontros com as equipes de inventariantes Tremembé, compostas por diversos agentes locais de transformação, incluindo comunicadores populares e professores da Escola Indígena Brolhos da Terra, que participaram ativamente de todo o processo de pesquisa e mapeamento. Destaque para o jovem comunicador indígena Luan de Castro Tremembé, que além de inventariante do grupo temático da Medicina Tradicional, foi nomeado pelo Conselho Indígena como o responsável pela captação dos registros audiovisuais que estão sendo utilizados para geração e difusão dos conteúdos sobre o projeto.

“Com a equipe reduzida e os constantes redesenhos da programação para cumprir os protocolos sanitários, foi necessário um maior protagonismo do grupo beneficiário na condução das atividades e metodologia, o que enriqueceu o caráter participativo do inventário”, relata a consultora Gabriella Pieroni, historiadora e educadora, componente das comunidades Slow Food Brasil Educação e Mandioca, e integrante da nova diretoria da ASFB, que esteve presencialmente nas ações de campo previstas pelo projeto para condução das atividades formativas e de intercâmbio de experiências entre as diferentes gerações dos Tremembé da Barra, que permitiram o aprofundamento no “saber-fazer” local.

Com o apoio do CETRA nas ações realizadas dentro do território e o suporte e acompanhamento dado pela Equipe de Saúde Indígena, inclusive com a distribuição de kits sanitários para a segurança dos participantes, as vivências percorreram os diversos cantos das aldeias Buriti do Meio, São José, Munguba e Buriti de Baixo. Foram do rio ao mar, subindo e descendo dunas, visitando os quintais produtivos e as casas de farinha e ouvindo histórias de pescadores, agricultores e cozinheiras.

Memórias de vida, como as reveladas nas palavras de “Seu” Zé Canaã, indígena Tremembé, que compartilha em suas canções compostas para o ritual sagrado Torém as inspirações encontradas no dia a dia em seu território:

"Na nossa mata tem murici, batiputá
Um serve de alimento, o outro serve pra curar
Nós vamo fazer o óleo do nosso batiputá
O pessoal que vem de fora todo mundo quer olhar"

(Murici e Batiputá -  Zé Canaã)
“Eu nasci ali nas baixas, me criei no São José 
Tamo lutando contra a empresa, seja lá o que Deus quiser 
São José e Buriti, tamo lutando contra a empresa pra tirar ela daqui 
Se nós tira ela daqui nós fica despreocupado
Vamo trabalhar livre lá dentro do nosso roçado...”
 
(Eu nasci ali nas Baixas - Zé Canaã)

O inventário participativo se apresenta, neste momento, como um instrumento de visibilidade e valorização da cultura alimentar do Povo Tremembé da Barra do Mundaú para fortalecer os laços identitários, “a relação de pertença com a Mãe Terra”, a conexão com o território sagrado e os “Encantados”, que são a própria manifestação da natureza “que produz o alimento e nos cura”.

Território e Cultura Alimentar no Ceará

O projeto é uma realização da Associação Slow Food do Brasil (ASFB) e do AKSAAM – Adaptando Conhecimento para a Agricultura Sustentável e o Acesso a Mercados, projeto do FIDA – Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), com o apoio dos projetos Paulo Freire (FIDA), São José (Banco Mundial) e a Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco.

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