Educação alimentar e do gosto

Projeto inovador da faculdade de gastronomia do SENAC MINAS, inspirado na metodologia do Slow Food, leva a educação alimentar e do gosto para a sala de aula de escolas da rede pública de ensino.

Aprender a escolher bem a nossa comida é uma das formas mais eficientes de cuidar da saúde e do bem-estar individual, social e, ainda, do meio-ambiente. A forma como nos alimentamos molda o mundo – parafraseando a jornalista e crítica Ailin Aleixo do excelente podcast Vai se Food. Comer bem requer conhecimento a fim de evitar que sejamos convencidos por propagandas e pelo excesso de marketing, disfarçado de conteúdo, disponível tanto na grande mídia como nas redes sociais.

“Incluir a educação alimentar no currículo das escolas brasileiras é essencial, considerando que o conhecimento sobre a composição nutricional e as características sensoriais dos alimentos influencia diretamente nas escolhas alimentares dos estudantes, tanto imediatamente quanto a longo prazo.” Defende Carolina Filgueiras, coordenadora do projeto de extensão “Educação do Gosto – Oficinas de educação sensorial” da faculdade de gastronomia do SENAC Minas. Para ela, o principal objetivo das oficinas do projeto é cultivar uma consciência crítica dos jovens sobre suas escolhas alimentares. 

Durante uma oficina do gosto do movimento Slow Food, na época de seu mestrado na Itália, Carolina relata ter se encontrado com seu tema de pesquisa “Essa vivência acendeu em mim uma paixão pelo conceito de educação do gosto, e a ideia de replicar uma iniciativa semelhante nas escolas brasileiras se manteve viva e latente em mim.” Foi a partir dessa memória que, como professora da faculdade de gastronomia, ela procurou a comunidade “Beagá pela Cultura Alimentar, nó da rede Slow Food Brasil na cidade, para junto a eles desenvolver o projeto. 

O primeiro passo foi aproximar a realidade da comunidade local com os princípios do Slow Food, de modo definir o escopo nas oficinas com base na publicação “Em que sentido – pequeno manual de educação sensorial”, de Carla Barzanò e Michele Fossi, lançado pelo Slow Food em 2009. Partindo desse objetivo e depois de muito diálogo e pesquisa conjunta foi construída a proposta desse projeto de extensão. As ações consistem em oficinas práticas, durante as quais os alunos são guiados a experimentar e reconhecer os alimentos por meio dos cinco sentidos e, também, de aula expositiva sobre o Slow Food. O conteúdo das oficinas foca em temas como a valorização de alimentos locais e práticas de culinária sustentável a partir da premissa dos alimentos bons, limpos e justos. “Esse processo colaborativo resultou em oficinas que não só alinhavam-se com os valores do Slow Food, mas também respeitam e valorizam o contexto cultural alimentar de Belo Horizonte”, destaca Carolina. 

Além disso, o projeto cumpre duas funções importantes na formação tanto na formação dos alunos do curso de gastronomia, quanto na dos jovens estudantes de escola pública. Ao transportar os estudantes de graduação para além dos limites acadêmicos tradicionais, a iniciativa enriquece o aprendizado promovendo a interação e a troca de saberes com a comunidade. Por outro lado, a professora ressalta que no âmbito do ensino público “Ao oferecer estas oficinas inovadoras e especiais, raramente acessíveis a estes estudantes, busca-se proporcionar experiências sensoriais únicas, ampliando as oportunidades de vivências enriquecedoras para alunos que, de outra forma, talvez não tivessem acesso a tais experiências em suas trajetórias de vida.”

O projeto está sendo realizado com adolescentes de um bairro central do município de Belo Horizonte, o mesmo onde está localizada a faculdade de gastronomia. Os primeiros resultados têm sido relatos que os estudantes trazem de casa relacionando a temática da oficina às suas vivências cotidianas. Ao final do projeto, que se dará em abril de 2024, Carolina conta que será gerado um compilado de dados e o objetivo é contribuir para o desenvolvimento do conhecimento científico ainda escasso nessa área no Brasil. “Apesar da eficácia dessa abordagem pedagógica, o conceito de educação do gosto ainda é relativamente pouco difundido no Brasil. Enquanto as oficinas sensoriais de educação do gosto são comumente encontradas em eventos e iniciativas do movimento Slow Food, que também oferece uma variedade de publicações sobre o tema, o ensino formalizado deste conceito em instituições educacionais, ainda é uma prática emergente no país.” conclui a professora. 

*As imagens utilizadas são de autoria da equipe do projeto para fins de divulgação do mesmo.

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