Viajar sem descolar do Slow Food, quais os caminhos ?

Verão chegando, férias, festas de fim de ano, viagens…. Porém, é bom lembrar que continuaremos sendo ativistas mesmo com as mudanças na rotina. As escolhas alimentares durante as viagens têm um lugar especial. Há uma profusão de textos sobre turismo e sustentabilidade nas redes sociais, em periódicos e congressos sobre o assunto. De um lado, fomenta-se o debate, de outro lacunas importantes são evidenciadas. É preciso lembrar que o preceito da sustentabilidade é um tripé econômico, social e ambiental. Assim, para um turismo sustentável é fundamental considerar as três áreas em equilíbrio respeitando o meio-ambiente, trabalhadores do setor e relações de comércio justas. 

Nesse contexto, é preciso tocar no ponto da alimentação servida aos turistas, colaboradores e empregados nos empreendimentos de hospedagem e restauração; que em qualquer um dos papéis acima citados, se dizem sustentáveis e simpatizantes ao Slow Food. Algumas perguntas necessárias são: os alimentos servidos são oriundos da agricultura familiar e agroecológicos? São produtos e alimentos da sociobiodiversidade local, da mariscagem e da pesca artesanal? A forma como os empreendimentos se relacionam com fornecedores, empregados e meio-ambiente também indica sustentabilidade. A mão de obra deve ser contratada de forma justa, sem emprego de trabalho infantil na produção, valorizando a diversidade de gênero, e seguindo as leis trabalhistas. Há ainda que se observar o cuidado no uso dos recursos naturais e o descarte de resíduos de forma correta. 

Esse debate é inadiável para quem quer de fato pensar sobre e fazer turismo com sustentabilidade e regeneração, praticando os princípios do Slow Food. O turismo gastronômico é uma das tendências para 2024, apontada por uma pesquisa do site Booking, empresa multinacional do setor do turismo. Não é qualquer turismo gastronômico que a pesquisa destaca, mas aquele em que o visitante quer conhecer as origens dos alimentos. É o que está sendo chamado de “arqueólogos culinários”: pessoas sedentas por descobrir, provar, registrar e divulgar a origem dos alimentos, pratos e bebidas genuínas de onde visitam. 

Ora, para isso ser viável a longo prazo devemos respeitar a sazonalidade, a oferta, as características de cada safra, coleta, criação e incorporar a defesa dos ecossistemas, dos biomas, das pessoas e do território nesse prazer da experiência. O turismo ecogastronômico e sustentável coloca no seu menu esses valores, o que requer todo um cuidado a mais com a cadeia produtiva.  Ser um ativista do Slow Food e um ecogastrônomo é ter atitude de defesa constante, formadora de laços entre culturas, pessoas e o planeta. É pagar um valor justo, ouvir e se abrir para aprender sobre aquele ingrediente e sua história. Os territórios onde atuam as Comunidades e Fortalezas Slow Food na Bahia podem ser uma boa opção de viagens desse tipo. Um exemplo são as festas populares organizadas nos diversos territórios rurais, como a Festa da Ostra no Quilombo Kaonge de Cachoeira, que está formando uma Comunidade Slow Food em defesa da biodiversidade da Bacia e Vale do Iguape. Ou ainda, a Festa do Licuri promovida pela cooperativa Coopes em Capim Grosso, que sedia a Fortaleza Slow Food do Licuri, e o Festival do Umbu em Uauá, uma iniciativa da cooperativa Coopercuc, que articula a Fortaleza Slow Food do Umbu.

Outra possibilidade é a visita às fábricas da Bahia Cacau em Ibicaraí e do  Assentamento 2 Riachões em Ibirapitanga, com uma vivência no sistema de cultivo agroflorestal do cacau cabruca. Há ainda outras experiências, como a colheita do arroz vermelho no Quilombo Coqueiros em Mirangaba, ou vivência com meles e outros produtos das abelhas sem ferrão no Meliponário Pólen Dourado, ambos registrados na Arca do Gosto. Prefere estar na água? Um tour de mariscagem e pesca artesanal no Viver Tur em Matarandiba, é uma experiência gastronômica que inclui o peixe assado na folha da patioba da Aldeia Velha em Porto Seguro. 

Em Salvador, procure por almoços bons, limpos e justos como o  Empório da Agricultura Familiar na Ceasinha do Rio Vermelho, ou o almoço camponês no espaço Raízes do Brasil Bahia, no Pelourinho. Fica a dica: onde for visitar faça seja responsável e torne sua viagem mais regenerativa, seja ativista e defenda a ecogastronomia.

Comments:

Zen Cardoso
1 de fevereiro de 2024

Artigo cheio de conteúdo de extrema relevância, e apetitoso. Veio de encontro ao que eu estava buscando e especialmente na Bahia. Inclusive, falei com a Nane Sampaio, sobre Dois Riachões. Fiquei encantada e já organizando essas vivências. Gratidão pelos informes e dicas preciosas! A gente se esbarra por ai! Abraços! Zen Cardoso

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