Livro de receitas

Uma nova geração de autores de livros de receitas defendem narrativas simples, afetivas, didáticas e que tem como foco a cultura alimentar brasileira. 

“A cozinha é um lugar de aprendizado, troca, é um lugar de exercer política, de aprender a lidar com o fogo e o tempo, é um lugar de encontro com o outro. O livro de receitas chega neste lugar do qual temos nos distanciado que é [aquele de] cozinhar e servir. Tem algo mais afetuoso que dedicar seu tempo no preparo de uma refeição para o próximo?” Rita Taraborelli é cozinheira, autora e ilustradora. Em seu mais recente livro Flora Comestível do Brasil a autora defende uma cozinha de ingredientes nativos da flora brasileira.Nas páginas do livro, a escrita cuidadosa, instigante e envolvente une-se às ilustrações e fotografias bucólicas; o resultado é um convite para cozinhar e partilhar a mesa.

Lançado em 2022, o livro é um compilado de receitas vegetarianas, comentários botânicos sobre ervas, especiarias e espécies autóctones, ou seja, nativas do território onde se encontram. Esse é o segundo livro de Rita dedicado à defesa de uma cozinha de fato brasileira, a partir do recorte da escolha dos ingredientes: “O foco é apresentar a planta e indicar alguns usos, um primeiro contato. Afinal, o grande questionamento por trás da obra é “por que não estamos usando alimentos da nossa flora nas receitas do dia a dia? Por que não encontramos sempre estes alimentos na feira e praticamente nunca no supermercado? Por que é tão difícil encontrar raspas de buriti para comprar se é uma palmeira abundante no país?” É uma grande cutucada, precisamos falar mais sobre os alimentos do nosso território”.

Apesar da defesa assertiva de Rita, o livro tem uma escrita delicada, uma narrativa que se alterna entre histórias, textos tutoriais das receitas e textos didáticos sobre os ingredientes, seus modos de uso e de cultivo. A autora defende que a narrativa precisa ser simples, seja no vocabulário, seja na escolha curatorial, que é guiada por receitas familiares: “Algumas são bem tradicionais como o cuscuz paulista, o pé de moleque, a feijoada e a farofa, porém com a inclusão de [pelo menos] um ingrediente da nossa flora”.

Flora Comestível do Brasil acompanha uma mudança no mercado editorial de livros de receitas. Apesar de serem muito populares no Brasil, até meados dos anos 2000, os livros do segmento seguiam uma tradição histórica de valorizar técnicas e incentivar o uso de ingredientes estrangeiros, com raras exceções. Ainda que os livros fossem clássicos da cozinha dita brasileira, o método, a organização e, até mesmo, a linguagem, eram herdados da época do Império, quando surgiram os primeiros livros de receitas nacionais. Os livros produzidos e escritos no Brasil tendem, ainda hoje, a serem focados em receitas e ingredientes europeus ou livros sobre tradições culinárias estrangeiras editados no Brasil. A possibilidade de publicações focadas em pesquisa e estudo de ingredientes ou técnicas nativas está em forte ascensão, mas são poucos os autores que chegam às grandes editoras e livrarias do país. A exemplo do livro Flora Comestível do Brasil, a publicação é quase sempre realizada de maneira independente, seja pelo financiamento coletivo ou dentro do âmbito de projetos culturais, sociais e/ou ambientais, cujo tema é a cultura alimentar. Nesse caso, estão incluídas todas as publicações do Slow Food Brasil, disponíveis no site do movimento gratuitamente.

Flora Comestível do Brasil, ganhador do Gourmand Awards 2023, na categoria Natureza.
Crédito: Nino Andrés

Além da valorização da cultura alimentar brasileira, são livros que resgatam os modos de narrar e as histórias, trazem os afetos e vivências de seus autores nas páginas, unidos às receitas compartilhadas, que também reúnem as influências e experiências na formação dos autores. Essa é mais uma camada dos livros de receitas contemporâneos, uma tendência que começou por volta de 2015 no Brasil, seguindo o mercado editorial estrangeiro. Tanto é assim, que Flora Comestível do Brasil recebeu em junho deste ano, o prêmio Gourmand Awards, maior premiação internacional do segmento, sendo premiado na categoria Natureza. A verdade é que o registro do que se come e como se prepara o alimento é parte importante da cultura de um povo e a transmissão desse conhecimento se dá em grande parte por meio dos livros de receitas. 

*Fotografia em destaque: Camila Fontenele

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