Sataré-Mawé são reconhecidos com “Nobel Verde” em sua primeira edição

Prêmio United Earth Amazônia criado pela família Nobel reforça a necessidade de unir povos e nações da Terra para construir um futuro coletivo e sustentável

texto editado a partir do original por Paola Nano.

A primeira cerimônia de entrega do prêmio da United Earth (também conhecido como “Nobel Verde”) ocorreu em Manaus, no estado do Amazonas, no fim de  fevereiro. Segundo estimativas da ONU, a região abriga 90 nações de diferentes povos indígenas, totalizando cerca de 440 mil pessoas, cada uma com sua língua, sua cultura e seus territórios. Dessas, cerca de 150 milhões são indígenas aldeados.

Um dos prêmios concedidos foi dado aos Sateré-Mawé, cuja comunidade (14.000 pessoas distribuídas em aproximadamente 120 aldeias) tem lutado pela sobrevivência de seu povo e cultura e pela sua soberania alimentar numa região de 8.000 quilômetros quadrados ao redor das nascentes dos rios Andirá e Marau. Apoiar as comunidades indígenas e os seus sistemas alimentares tradicionais significa conservar a biodiversidade do mundo. No caso da Sateré Mawé, Obadias e outros líderes comunitários juntaram-se ao movimento Slow Food em 2002, quando  foi articulada a Fortaleza do Waraná Sateré-Mawé para proteger e valorizar um alimento sagrado com elevado valor cultural, que popularmente chamamos guaraná. 

Em 2020, o waraná dos Sateré-Mawé obteve a Denominação de Origem (D.O.) brasileira. “Conseguir a Denominação de Origem significa certificar que o produto, com suas características ligadas a fatores humanos e naturais, apenas existe naquela área geográfica específica”, explicou Maurizio Fraboni, doutor em socioeconomia  do desenvolvimento, que há décadas trabalha ao lado dos Sateré-Mawé. A D.O. do waraná é ainda mais significativa visto que a bacia hidrográfica formada pelas águas dos rios Andirá e Marau é o banco genético natural do guaraná, o único do mundo. Um santuário ecológico e cultural construído ao longo dos séculos.

Na floresta, os Sateré-Mawé coletam as sementes que caem aos pés das plantas de waraná, trepadeiras selvagens de até 12 metros de altura, e as plantam em clareiras, onde são manejadas e mantidas em arbustos cultivados. Das sementes, por meio de métodos tradicionais de beneficiamento, os Sateré-Mawé obtêm um extrato muito nutritivo que combate o cansaço e estimula as funções cognitivas e a memória. Um suplemento já bem conhecido, hoje comercializado em todo o mundo. Impulsionada pelos negócios, a indústria agroalimentar começou a impor o uso de variedades obtidas por clonagem a muitos agricultores que produzem fora das terras indígenas.

Para administrar o mercado de forma respeitosa e sustentável, foi criado o Consórcio de Produtores Sateré-Mawé (CPSM) que, por sua vez, faz parte do Conselho Geral da Tribo Sateré-Mawé (CGTSM), o maior órgão de representação política desse povo. O CPSM é responsável pela gestão, controle e comercialização do waraná em bastão (pão de waraná) e em pó, e representa os produtores Sateré-Mawé em eventos nacionais e internacionais, defendendo a causa indígena em diversos contextos políticos.

Um papel essencial na polinização da planta do waraná é desempenhado pela abelha canudo (Scaptotrigona xantothrica), na língua indígena Sateré-Mawé “Awi’a sese”, que também se tornou Fortaleza Slow Food por sua conexão ecológica com o waraná e o ecossistema. Trata-se de uma abelha muito resistente, que produz um mel extraordinário, com um sabor marcante e selvagem. A conexão dos Sateré-Mawé com essa abelha sem ferrão remonta à época pré-colombiana. O conhecimento tradicional Sateré-Mawé que quando Anumaré Hit subiu ao céu, transformado em Sol, convidou a irmã Uniawamoni para ir com ele. A mulher hesitou, mas depois decidiu ficar na Terra, transformando-se em abelha para cuidar, com os Sateré-Mawé, das florestas sagradas do waraná. Esse mito transmite o que os antigos Mawé já sabiam e que estamos redescobrindo hoje, ou seja, que as abelhas nativas sem ferrão são responsáveis pela polinização de 80% das espécies vegetais da Amazônia. Sem elas, a floresta desapareceria.

Deixe um comentário:

Últimas notícias

Visual Portfolio, Posts & Image Gallery for WordPress

WhatsApp-Image-2023-02-05-at-18.41.03

Cozinha afetiva de verdade

“Nos quilombos em que estive, foi com as mulheres, quase sempre no ambiente da roça ou da cozinha, que fui tomada  pelas histórias que generosamente elas me contaram e ali percebi a...