Escola indígena em Itapipoca partilha acervo para o inventário do patrimônio cultural alimentar

“A cultura alimentar é um elemento importante para nossa resistência enquanto povo indígena porque representa nossas tradições e a nossa conexão com o território”, afirma Mateus Tremembé, articulador local do projeto Território e Cultura Alimentar no Ceará. Ele também é agricultor familiar, agente ambiental, estudante de agronomia, pesquisador e jovem liderança, e tem se dedicado à regeneração das relações comunitárias em torno do alimento.

O projeto é uma realização da Associação Slow Food do Brasil (ASFB) e do AKSAAM – Adaptando Conhecimento para a Agricultura Sustentável e o Acesso a Mercados, projeto do FIDA – Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), e uma das ações previstas é a elaboração do inventário participativo da cultura alimentar do Povo Tremembé da Barra do Mundaú, que vêm mobilizando jovens, mulheres e lideranças da comunidade para mapear e salvaguardar os sabores e as tradições alimentares locais.

Os inventariantes indígenas, organizados desde o primeiro encontro em equipes temáticas conduzidas pela consultora Gabriella Pieroni, historiadora e educadora, integrante dos grupos de trabalho Slow Food Brasil Educação e Mandioca, apresentaram os registros coletados durante as entrevistas e vivências em campo preenchendo as fichas do inventário e produzindo textos sobre as referências culturais alimentares pesquisadas.

A Escola Indígena Brolhos da Terra, localizada na Aldeia Munguba, está participando ativamente da construção deste instrumento de preservação do patrimônio imaterial. Além de contar com a participação de professores e da diretoria enquanto inventariantes, como Sandra, Sitonio, Lucilene, Cleidiane e Maria da Paz, o acervo de materiais educativos da instituição, em sua maioria produzidos à mão, foi cedido para sistematização dos saberes próprios do território.

As cartilhas e conteúdos resultam da dedicação dos docentes em trazer para o processo educativo toda a luta, história e cultura do Povo Tremembé da Barra do Mundaú, com destaque para os modos de pescar, cultivar e a culinária tradicional das Casas de Farinha.

Erbene Tremembé, professora, liderança indígena e coordenadora do Centro de Educação Infantil Curumim e Cunhatã, explicou que “o inventário participativo é importante para deixar registrado para as nossas futuras gerações, e também para a atual, a história do nosso povo, para que possam conhecer e entender a beleza dos nossos modos de fazer e garantir nossa sustentabilidade”.

Os encontros realizados no mês de março seguiram todos os protocolos de segurança estabelecidos para controle da pandemia do Covid-19 e foram acompanhados pela equipe de saúde indígena, que também entregou kits sanitários aos inventariantes.

O projeto “Território e Cultura Alimentar no Ceará” conta ainda com o apoio dos projetos Paulo Freire (FIDA), São José (Banco Mundial) e a Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco. E as ações realizadas em território Tremembé contam, ainda, com apoio do CETRA.

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