Por mais ativismo alimentar na gastronomia

“É preciso mudar radicalmente o sistema alimentar vigente”, defende Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food, em evento realizado em São Paulo no início de novembro de 2022.

Integrantes do Movimento Slow Food Brasil reunidos com Carlo Petrini no Mesa Tendências 2022. Foto Lucas Mourão.

Em conferência para um auditório repleto de atentos ouvintes, Carlo Petrini defendeu a importância dos ativistas para uma mudança radical do atual sistema de produção de alimentos. No evento Mesa Tendências 2022, realizado pela Prazeres da Mesa, Petrini dedicou sua fala aos diversos profissionais do setor da gastronomia.

Para a reestruturação necessária do sistema de produção de alimentos, Petrini destaca três pontos de partida para a ação. O primeiro consiste na valorização da agricultura familiar campesina “Temos de nos esforçar para pagar aos agricultores e produtores o preço justo, e ainda não o conseguimos fazer. Quando um grande chef utiliza produtos provenientes de povos indígenas, a primeira coisa que deve levar a sério é reconhecer o seu valor econômico, para que os agricultores adquiram a dignidade que merecem.” Segundo ele, só assim atingiremos o patamar de um alimento de fato justo.

O segundo ponto é um apelo à mídia especializada, aos jornalistas que devem contribuir com a educação alimentar “Por favor, vamos parar de fazer matérias de avaliação e vamos focar em matérias informativas. Vamos transformar este grande circo de prêmios e estrelas em um trabalho de informação e educação básica em massa.” A inclusão da educação alimentar como disciplina regular em currículos escolares também foi sugerida, no entanto, é preciso caminhar primeiro com o entendimento popular para que essa demanda possa se transformar em política pública.

O terceiro ponto diz respeito à mudança na lógica interna que impera nas cozinhas profissionais da alta gastronomia e reflete em toda a cadeia da hospitalidade e gastronomia no país e no mundo. Petrini aponta que as cozinhas profissionais ainda se organizam com base no método rígido e militar idealizado por Auguste Escoffier no final do século XIX: “O resultado é que hoje em dia nas cozinhas não há abraço ou fraternidade, mas sim violência e sofrimento. Devemos subverter essa lógica, as cozinhas devem tornar-se comunidades produtivas, não quartéis, mas lugares de sociabilidade e formação.”

Comida é cultura, identidade e pertencimento

A fala de Petrini convoca o setor da gastronomia a fazer parte de um processo mais amplo que é o de reconhecer e defender a cultura alimentar. Entender que comida, desde o cultivo, passando pela forma de preparo até os modos e rituais consumo é cultura.  A comida está intimamente ligada à tradição e à identidade de um povo. Só a partir dessa compreensão e com envolvimento da comunidade surge o componente fraterno que levará à mudança do sistema de produção de alimentos.

Desde 2000, oSlow Food atua em projetos junto à agricultura familiar e camponesa, às comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas. O movimento atua na defesa e na promoção das práticas, técnicas e alimentos com os quais as comunidades trabalham e de onde retiram sustento ao mesmo tempo em que protegem a terra. Outra frente do movimento tem presença em diversos eventos de valorização da sociobiodiversidade e da gastronomia como o Mesa SP, e contribui na formação de cozinheiros e profissionais ativistas da alimentação. Esse ano, a Associação Slow Food Brasil (ASFB) foi reconhecida como Instituição Cultural pelo governo do Estado de São Paulo, passo fundamental para a manutenção da atuação da própria instituição nos territórios. Agora, a associação faz parte do Programa da Nota Fiscal Paulista e pode receber doações diretas por meio dele.

O cadastro como doador é simples e assim você apoia o trabalho realizado pela ASFB. Imagem: divulgação.

Apesar de o ano 2022 ter sido desafiador, é preciso celebrar essa conquista. Elaine Diniz, coordenadora administrativa da ASFB, explica como funciona o programa. “Todas as pessoas – física (CPF) ou jurídica (CNPJ) – podem ajudar, é uma doação a custo zero. Para pessoas físicas, basta se cadastrar através do site do programa da Nota Fiscal Paulista e escolher a organização a qual deseja doar os créditos.” A boa notícia é que o doador concorre a prêmios em dinheiro ao se cadastrar no programa. Já para pessoas jurídicas o processo é através de campanhas “Os estabelecimentos podem ajudar estimulando a doação do documento fiscal, emitido em razão da aquisição de mercadorias, bens ou serviços de transporte interestadual ou intermunicipal, desde que o documento fiscal não indique o CNPJ ou CPF do consumidor”, explica Elaine. Um guia completo sobre como fazer a doação pode ser acessado no link  slowfoodbrasil.org.br/nfpaulista/.

Como é tempo de celebrações, de encerramento de etapas e de sonhar novas, fica aqui o convite para que possamos não só apreciar, mas pensar a gastronomia, a partir da cultura, da agroecologia e da comunidade no próximo ano. 

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