Da conservação da floresta à multiplicação dos peixes

A extraordinária história do pirarucu de manejo – iniciativa de conservação ambiental – que salvou a espécie da extinção e expandiu a comercialização em todo o Brasil.

As comunidades ribeirinhas protegem os lagos de várzea ao longo de ano, antes da temporadas da pesca, realizam a contagem dos peixes e, entre setembro e outubro, manejam o pirarucu.

O peixe gigante de escamas vermelhas, cujo nome em tupi é formado pela união das palavras pira (peixe) e urucum, é o protagonista de uma de uma iniciativa única de conservação ambiental no Brasil. O manejo do pirarucu é uma atividade econômica valorizada e em expansão que garante renda justa às comunidades ribeirinhas e permite a comercialização de um pescado verdadeiramente sustentável. 

“As populações extrativistas sempre viveram manejando os recursos naturais, mas não era uma atividade reconhecida. É uma cultura que se passa de pai para filho e ensina o uso correto dos recursos naturais para não desequilibrar o ambiente”. Assim, Manoel Cunha, define o saber tradicional de seu ofício. Manejador na região do Médio Juruá (AM), Manoel vivenciou o que chama de “casamento” do saber cultural e tradicional com o conhecimento científico, resultando no reconhecimento do manejo do pirarucu.   

Com o avanço da pesca depredatória, no início dos anos 1990, o pirarucu estava na lista das espécies ameaçadas de extinção, tanto que em 1996, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (IBAMA) proibiu completamente a pesca (Portaria 08/96). Tal medida, afetou diretamente a vida das comunidades ribeirinhas de várzea dos rios Amazonas e Solimões, que têm no peixe a principal fonte proteica de sua alimentação. Ana Alice Oliveira de Britto, coordenadora de comercialização da Associação dos Produtores Rurais do Carauari (Asproc), conta que no mesmo período foram formalizadas as primeiras Unidades de Conservação (UCs) da Floresta Amazônica. Segundo ela, a política pública das UCs fortaleceu associações comunitárias que defenderam junto ao Ibama a liberação da pesca extrativista. Assim, em 1999, iniciou-se um ciclo no qual “As comunidades ribeirinhas conseguem desenvolver uma atividade econômica da qual detém o controle da produção e que gera retorno financeiro. Como resultado elas conservam, cuidam e ocupam a área de várzea. Depois do manejo do pirarucu, outros produtos naturais e outros peixes começaram a ter a população reposta, e as comunidades se tornaram agentes diretos de conservação da floresta.”, conclui Ana Alice. 

A Asproc é parte do Coletivo do Pirarucu, que reúne onze associações de base comunitárias, e conta com apoio e incentivo de outras organizações do terceiro setor. A Asproc é também a responsável por gerir a comercialização do peixe do Coletivo do Pirarucu, especialmente, do pescado que é exportado para fora do estado do Amazonas. Cada vez mais, as mulheres da comunidade atuam como gestoras da logística de comercialização. “É muito trabalho, gerir todas as áreas produtoras e manter a qualidade e a oferta constante que o mercado exige. Tem o custo de transporte, de estocagem, de processamento em frigorífico. As áreas produtoras – mais de 30 territórios – ficam bem distantes do centro de distribuição que é Manaus. A Asproc oferece desde capacitação para os integrantes do Coletivo, visando a manutenção do padrão de qualidade do produto até a autonomia da venda caso queiram comercializar por conta própria”.

Esse trabalho cuidadoso garante a rastreabilidade do produto e permite a expansão da venda em outras regiões do Brasil. Desde 2019, por meio da marca coletiva Gosto da Amazônia, o pirarucu de manejo é vendido em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e, em 2022, chega a Belo Horizonte. O chef Breno Berdu, responsável pela cozinha do Hotel Emiliano de São Paulo, trabalha com o pirarucu e destaca: “O peixe tem uma fibra muito consistente, diferente de todos os outros disponíveis. Por si só já é uma experiência. Pode ser preparado em lâminas, assado, na churrasqueira. É tão versátil como um frango, mas é um produto nativo e de pesca sustentável. Acredito que a responsabilidade de um chef, hoje, é cuidar, desde quem produz até quem consome o que sai da cozinha.”  

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