Para o cacau: cabruca

O sistema tradicional de cultivo do cacau no sul da Bahia, conhecido como “Cabruca”, destaca-se como um dos maiores exemplos de agricultura de escala associada a um sistema agroflorestal simplificado, onde o cacaueiro cresce sob a sombra das árvores nativas da Mata Atlântica. No entanto, esse modelo enfrenta uma forte pressão por modernização através da introdução da chamada “cabruca produtiva”.

 Essa nova proposta surge da premissa legítima de que as roças de cacau precisam gerar lucro e garantir a sustentabilidade econômica dos produtores rurais. O grande perigo, contudo, reside na falta de controle rigoroso, na escassez de estudos científicos aprofundados e na ausência de responsabilidade socioambiental na execução dessa transição. Ao prever uma redução drástica no número de árvores de sombra para aumentar a luminosidade e a produtividade das plantas, o novo modelo ameaça desconfigurar o maior ativo ecológico e econômico da região cacaueira.

A substituição desordenada do sistema tradicional pelo modelo de menor adensamento arbóreo pode desencadear transformações irreversíveis na paisagem sul baiana. Sem critérios técnicos claros e fiscalização, a abertura excessiva do dossel florestal expõe o solo e os cacaueiros diretamente às intempéries, acelerando processos de degradação. Essa alteração estrutural impacta diretamente o microclima local, tornando a região drasticamente mais vulnerável às mudanças climáticas globais, com o aumento das temperaturas internas das roças e a perda da umidade essencial para o desenvolvimento do próprio fruto.

O sistema tradicional atua como um corredor ecológico e habitat  para diversos grupos da fauna, além de garantir a conservação dos recursos hídricos, minimizar  efeitos de borda de fragmentos florestais e a fixação de carbono no solo. 

O modelo contrário disso, consequentemente, prejudica o desempenho da função ecológica das cabrucas que fica gravemente comprometido.Ao reduzir a biodiversidade de árvores nativas, destrói-se o habitat de polinizadores naturais e inimigos biológicos de pragas, gerando um ciclo de dependência de insumos químicos que anula o propósito da sustentabilidade. 

Com isso, preservar a essência da “Cabruca” não significa estagnação econômica, mas compreender que o valor de mercado do cacau sul baiano está intrinsecamente ligado à sua identidade florestal. Buscar a produtividade sem a devida responsabilidade ecológica é colocar em risco o futuro do ecossistema e a viabilidade da própria lavoura a longo prazo.

Texto de Gabriel Rodrigues, ponto focal da CSF Cacau&Chocolate na Bahia

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