Cacau com C maiúsculo – aquele que caminha com a agrofloresta

Mais uma vez estamos aqui pensando na articulação de campanhas que promovam a sustentabilidade e que nos tragam caminhos que possam aflorar a ideia que, mesmo sendo bacana, pode ter muitas controvérsias, a depender de quem traz isso como bandeira. Será mesmo correto dizer que é a palavra da moda, em função disso, esse conceito pode ser muito perigoso nas mãos de alguns.

E o cacau dentro desse contexto, como funciona? Esse fruto requer tempo, solo, espécies variadas e parceiras, sombra e água e, só dessa forma é que ele pode devolver mais, criar mais, oferecer mais agrofloresta e, de comum acordo com o seu contexto, quem ganha somos nós!

Entenda o consórcio que o cacau espera que deixemos coexistir e permanecer:

O real consórcio agroecológico e lógico do qual o cacau pertence vem sendo esmagado assustadoramente.

A ganância por ganhos estratosféricos em torno do mundo chocolateiro fala mais alto do que a oferta no solo.

Quando analisamos a cadeia global de produção, existe uma distância entre os países produtores e os consumidores, e também entre quem planta e quem lucra. O doce, ou melhor, “sabor chocolate” que derrete na boca de poucos, carrega a sobrecarga de muitos territórios. 

E nesse ruído dos cifrões, as variedades nativas do fruto vão sendo substituídas por cultivares resistentes ao sol, ao mesmo tempo que se põem abaixo florestas (cabrucas) que sustentaram o cacau por décadas. 

Esse cenário é o espelho de um modelo que concentra lucro, padroniza processos e se distancia cada vez mais da origem do cacau e da forma de pensar a cacauicultura. Mas, ao mesmo tempo, começam a surgir novos, mas conhecidos caminhos, provenientes de quem luta para manutenção da cultura originária que preza por técnicas e tecnologias ancestrais e honram o fazer com as mãos, criando uma relação mais íntima com a terra e com o tempo dela. 

Enquanto a grande indústria do chocolate segue nesse movimento doentio e irreal, também cresce um outro, que vai na direção oposta — mais próximo da origem, mais transparente, justo e limpo. 

Cada vez mais pessoas estão produzindo seu próprio chocolate, no modelo da amêndoa à barra (bean to bar). E isso significa controlar todas as etapas: desde a escolha do cacau até a barra. Não é só uma questão de qualidade, mas de construir uma relação direta com quem planta e, a partir disso, produzir bons chocolates. Em vez de comprar matéria-prima anônima, esses produtores buscam conhecer as origens, negociar de maneira justa os valores e dar luz ao trabalho no campo, respeitando a agroecologia, colaborando para uma construção íntima e limpa dentro dessa cadeia e praticando economia solidária sólida e permanente.

Esse movimento também contribui para manter a diversidade do cacau, ao contrário da lógica industrial, que tende a substituir variedades nativas por cultivares mais produtivos. Muitas marcas de chocolate artesanais se interessam justamente pelas características únicas de cada tipo de cacau — sabor e aroma — buscando proporcionar verdadeiras experiências sensoriais para o consumidor final. Isso cria um incentivo real para que produtores preservem sistemas como a cabruca, evitem o desmatamento e mantenham a floresta de pé.

O que antes era comum — produzir, transformar e consumir de forma mais local e integrada — hoje parece diferente e alternativo mas, na prática, são iniciativas que tentam reequilibrar a cadeia: aproximar quem planta de quem beneficia, e quem beneficia de quem consome. O tripé da organicidade frutífera e próspera

Ainda é um movimento pequeno diante do tamanho da indústria global, mas ele existe, cresce e aponta que outro caminho é possível — não como tendência passageira, mas como uma forma mais consciente de produzir e consumir chocolate.

E viva o cacau com tudo que ele é e faz por nós!

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