Sopa na Mona Lisa, iconoclash e alimentação sustentável

Talvez você tenha visto, nos últimos dias, notícias sobre ataque de ativistas ao quadro da Mona Lisa, no Museu do Louvre1. Elas atiraram sopa de abóbora em direção ao quadro e, na sequência, proferiram: “O que é mais importante, a arte ou o direito a alimentos saudáveis e sustentáveis? Nosso sistema agrícola está doente!”

Não foi a primeira vez que a Mona Lisa foi alvo deste tipo de manifestação. Também já ocorreram ataques a outras obras de artistas europeus famosos, como Gustav Klimt, Francisco de Goya e Claude Monet. Em decorrência, museus célebres tornaram ainda mais restritivos seus protocolos de segurança, buscando evitar que as obras sejam danificadas. A Mona Lisa é exposta ao público resguardada por uma proteção de vidro e o Museu do Louvre afirmou que a integridade do quadro não foi afetada. É sabido por muita gente que a Mona Lisa é protegida por essa película de vidro. Ainda assim, em um primeiro momento, é inevitável o susto diante do ato. Neste texto, convido a observar e refletir sobre aquela fração de segundo entre  o “oh, meu deus!” e o “ufa!”.

Para conduzir a discussão em torno de episódios como este, proponho tomar como linha argumentativa a ideia de iconoclash, do antropólogo francês Bruno Latour. O termo iconoclash, que pode ser traduzido para o português como “iconochoque”, diz respeito a conflitos que envolvem ações humanas sobre imagens. Tais ações parecem, em um primeiro momento, não ter motivações óbvias, provocando choque no(a) espectador(a).

Iconoclasmo é quando sabemos o que está acontecendo no ato de quebrar e quais são as motivações para o que se apresenta como um claro projeto de destruição; iconoclash, por outro lado, é quando não se sabe, quando se hesita, quando se é perturbado por uma ação para a qual não há maneira de saber, sem uma investigação maior, se é destrutiva ou construtiva (Latour, 2008, p. 112-113).

Antes de falar a que vieram e de transmitir uma mensagem objetiva ao público, as ativistas jogaram sopa de abóbora no quadro Mona Lisa, logicamente para chamar a atenção de pessoas presentes no local e também pelo mundo, afinal aquelas imagens logo estariam percorrendo o globo através de veículos de imprensa e em redes sociais. Mas por que essa ação chama a atenção? Por que alguns movimentos sociais não veem esse tipo de ação como ato de vandalismo, mas como estratégia de impacto para abordar a temática ambiental ou, como no caso mais recente, da alimentação saudável e sustentável?

Primeiramente, podemos pensar sobre os significados da Mona Lisa, mas não somente dela e sim de quaisquer obras de arte que ocupam lugar de destaque e relevância no imaginário ocidental. Os museus, que abrigam fisicamente essas obras, são lugares de culto à racionalidade humana e ao triunfo do percurso dessa humanidade rumo à modernidade. Além disso, carregam consigo a essência de uma noção importante para a discussão sobre alimentação e ambiente: a conservação. O ato de atingir uma obra que representa o que há de belo na humanidade, em espaço tão profícuo à conservação das produções humanas, estremece essas mesmas concepções.

O ódio que as imagens atraem seguirá retornando a elas, mesmo que tais imagens não sejam a motivação pura do ataque, porque elas são intermediárias no que diz respeito ao verdadeiro alvo: a modernidade. No entanto, os movimentos sociais que utilizam do incômodo gerado pelo iconoclash poderiam pensar além, caso queiram realmente chamar a atenção para uma causa importante. Afinal, o desconforto gerado pela ação nos espectadores pode ser mais sobre pisar os próprios calos daquela sociedade do que sobre convidar à reflexão a respeito da emergência alimentar – ou ambiental – em si.

As reações dos espectadores podem ser diversas e resultam das percepções de mundo e dos contextos em que vivem. Pensando a partir de Latour (2008), pode haver aqueles que sentem o impacto e apoiam este tipo de ação, estimando a arte, veem nela também um meio de transformação de mundos, acreditando que reconfigurações podem emergir de desfigurações. Há também aqueles que concordam com a destruição de obras de arte por não as estimarem, por não verem significados profundos em sua existência ou integridade, de modo que, para esses, o iconoclash não terá êxito na tentativa de chamar a atenção sobre a alimentação sustentável. Há ainda aqueles que reconhecem a importância da arte e se importam com a integridade das obras, vendo uma ação de ataque como um ato abusivo, o que acaba por distanciar esse tipo de espectador da mensagem que o grupo ativista pretende lançar através do iconoclash. Nessa perspectiva, o movimento que realiza a ação passa a ser associado a mero vandalismo e, nessa perspectiva, a ação não chama efetivamente a atenção para a questão alimentar – ou ambiental –, mas fere algo importante que, em última instância, não tem qualquer relação com as motivações a serem debatidas como, por exemplo, o acesso à alimentação sustentável e de qualidade. Por fim, há aqueles que não são afetados pela ação, mas que se importam e sentem os efeitos da mensagem. Esse grupo não é atingido pelo dano à Mona Lisa porque ela, em si, não representa para eles algo relevante.

Em seu documento de apresentação, o movimento Riposte Alimentaire, responsável pelo episódio recente da sopa de abóbora jogada na Mona Lisa, assume que prioriza o método de “provocar o máximo de perturbação possível”, a fim de chamar a atenção das pessoas para o movimento e sua mensagem, descrevendo a sociedade  como uma “sociedade suicida”. Considerando a declaração do coletivo e as reflexões expostas ao longo deste texto, é possível apreender a coerência entre o método, o iconoclash e o objetivo de “choque”. Entretanto, também é possível questionar a efetividade das ações, levando em conta o propósito do movimento e a parcela da sociedade com a qual se propõe a dialogar e atingir com suas atividades.

REFERÊNCIAS

  • LATOUR, Bruno. O que é iconoclash? Ou, há um mundo além das guerras de imagem? Horizontes Antropológicos, ano 14, n. 29, p. 111-150, jan/jun. 2008.
  • RIPOSTE ALIMENTAIRE. Dossier de presse. Disponível em: <https://ripostealimentaire.fr/wp-content/uploads/2024/01/DOSSIER_DE_PRESSE_Riposte_Alimentaire.pdf>. Acesso em 01 fev. 2024.
  1. Ver aqui notícia sobre o episódio comentado (dela foi extraída a foto que ilustra este texto). ↩︎

* Janice Alves Trajano ([email protected]) é nutricionista (pela Faculdade de Juazeiro do Norte); mestre em Antropologia (pela Universidade Federal do Ceará) e doutoranda em Antropologia (pela Universidade Federal de Pelotas).

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