As ações do projeto Território e Cultura Alimentar no Ceará realizadas na Aldeia Gameleira, localizada no município de São Benedito, mobilizaram desde a juventude até os troncos velhos em torno de seus modos de viver.
A relação com o território gera pertencimento. Em cada maniva cultivada e semente que brota na terra indígena do povo Tapuya Kariri carrega memórias da existência e da resistência de quem nela e dela vive e ainda luta por direitos básicos, como sua demarcação. É no cotidiano, na interação com o espaço, no ato de plantar, colher, preparar, partilhar e, também, celebrar o alimento, que são tecidos os laços que sustentam a comunidade.
A partir da abordagem metodológica do Slow Food para construção do inventário participativo da cultura alimentar, com atividades imersivas e coletivas na Aldeia Gameleira, a comunidade pode se envolver em torno do seu patrimônio cultural alimentar. Os grupos formados para pesquisa e comunicação mergulharam em uma experiência cultural vivenciando e registrando momentos que revelaram a força do território e das tradições do povo.
Construída coletivamente com as associações locais, a programação contou com atividades que floresceram a convivência e a partilha, incentivando o protagonismo comunitário nos temas: “AGRICULTURA ANCESTRAL”, “CASAS DE FARINHA”, “CRIAÇÃO DE ANIMAIS, CAÇA E PESCA”, “MEDICINA TRADICIONAL”, “PREPAROS CULINÁRIOS” e “MEMÓRIA”. Durante os dias de campo foram realizadas entrevistas, gravações e registros fotográficos que irão compor os vídeos e as publicações do inventário e do plano de salvaguarda.
Mais do que pesquisa, os encontros foram momentos de celebração dos modos de viver o território. As atividades envolveram visitas a quintais produtivos, roçados e lugares sagrados, compondo um percurso de vivências que entrelaçou os saberes e fazeres locais e os sabores tradicionais, do plantio à colheita de alimentos e ervas medicinais, rezas e benzimentos com folhas sagradas, cuidados com os animais e preparo de comidas.
A culminância foi a participação na Assembléia Geral da Associação Indígena Tapuya Kariri, realizada nos Buracos, uma área de importância ancestral dentro do território. Os olhos e as câmeras se encheram de paisagens e memórias. Em um grande círculo profundo na terra, ao som de atabaques e cheiros de ervas defumadas, as pessoas presentes cantaram, dançaram e rezaram, ecoaram suas vozes manifestando a força de seus encantados e a resistência de suas raízes. A juventude registrou em fotos, vídeos e entrevistas a força do território e das tradições do povo Tapuya Kariri.
Ao reconhecer seus saberes e práticas e suas formas de vivenciar o espaço, o povo Tapuya Kariri também se apropria do seu patrimônio cultural alimentar e reafirma um modo de estar no mundo que é coletivo e ancestral. A terra deixa de ser apenas o chão e passa a ser também as palavras dos mais velhos, os gestos da juventude, os rituais comunitários cotidianos.
Ao valorizar suas tradições, a comunidade reafirma sua autonomia e conexão com o próprio território, e reforça a importância de uma participação ativa na construção de um futuro alinhado às suas referências culturais e ambientais. “Falar da cultura alimentar também é a preservação do meio ambiente e da natureza, porque se a gente não tem o nosso meio ambiente, se a gente não tem a natureza, a gente não tem como sobreviver. A gente não vai ter rio, não vai ter terra, não vamos ter nada”, afirma Jonathan Silva, professor da Escola Indígena Francisco Gonçalves de Sousa.
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O projeto “Território e Cultura Alimentar no Ceará” é uma correalização da ASFB em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Agrário do Estado do Ceará SDA/CE, através do Projeto São José.

