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Caracata: um prato que alimenta o corpo e a alma

mapa_mocambique.jpgTomando como base a divisão administrativa por regiões de Moçambique (ver mapa) – país situado na costa oriental da África -, temos que na zona sul (Maputo, Gaza e Inhambane) a "eleição alimentar" dirige-se ao arroz, na zona central (Manica, Sofala, Tete e Zambézia) ao milho e na zona norte (Nampula, Niassa e Cabo-Delgado) à mandioca. Especificamente no que diz respeito à zona norte, a produção de mandioca é massificada entre as famílias e comunidades rurais. Ano após ano, as famílias reservam grandes extensões de terra a essa planta. É comum, em qualquer pedaço de terra agricultável, encontrar-se uma plantação de mandioca, planta mais produzida na região.

A importância da mandioca no norte de Moçambique é evidenciada pela produção em monocultivo, sendo associada ao sustento dos membros e à honra do chefe da família. Tal fato estabelece diferença com o observado por Woortmann e Woortmann (1997), em estudo realizado entre camponeses do nordeste brasileiro, quando indicaram que os agricultores praticavam consorciamento em função do tempo de cada planta. A planta do ciclo curto era colocada na mesma parcela com a de ciclo longo, para permitir colheitas separadas e bom aproveitamento da terra. Mas para as famílias observadas de Nampula, a planta importante é colocada em uma parcela separada, para que receba dedicação exclusiva, já que, nesse caso, está em questão a honra do chefe da família.

caracata_em_bolinhas_no_prato.jpgCaracata constitui-se de farinha de mandioca seca. A mandioca, depois de colhida e processada, é colocada a secar e triturada, para extrair a farinha. Seu preparo envolve, inicialmente, a fervura de água em uma panela no fogo, em que é colocada a farinha, sendo, em seguida, mexida até que fique cozida. É uma massa muito dura e densa, de consistência aderente e plástica, consumida geralmente com as mãos, o que exige que a pessoa tenha unhas ou as pontas dos dedos muito firmes para poder cortar, enrolar na palma da mão (como uma pequena bola), mergulhar em um molho – que pode ser de carne, verdura, peixe etc – e engolir sem mastigar.

limpeza_e_processamento.jpgQuando o molho é de folhas de mandioca, o prato simboliza que a terra e o céu encontram-se, convivendo alegremente. A terra, que deu suporte à mandioca, e o céu, que cuidou das chuvas, estão em festa. Assim, a caracata constitui-se em um prato base na culinária das famílias.

A ação de consumir caracata obedece a um ritual: não deve ser apenas consumida, existem regras a observar. É preciso saber colocar os dedos na massa para conseguir cortar somente o pedacinho com que se faz a bolinha na mão. Se for mastigada, estar-se-á desrespeitando a dona da casa que preparou o prato, pois ao mastigar o convidado indica haver desconfiança de que a dona da casa tenha incorporado na massa substâncias perigosas. Mastigar deve ser evitado, pois na visão de mundo daquelas famílias, a mulher seria incapaz de fazer algo de mal ou fazer as coisas com desleixo, de modo a permitir que algo estranho ou perigoso estivesse presente na massa. Cortar muita massa e daí decidir reduzir também infringe o regulamento, pois tem o mesmo significado que mastigar a massa. A ideia é que quem mastiga desconfia que algo pode estar na massa e, por isso, mastiga para descobrir antes de engolir. E quem corta para depois reduzir a porção (devolvendo o excesso ao prato ou não), pode estar agindo como quem está procurando algo, o que, do mesmo modo, é interpretado como desconfiança e, assim, causa ofensa.

Fischler (1995, p. 65-66), em seu livro El (h)omnívoro: el gusto, la cocina y el cuerpo, ao abordar a questão do princípio da incorporação, relaciona-o ao

lavagem_da_mandioca.jpg"movimiento por el cual hacemos traspasar al alimento la frontera entre el mundo y nuestro cuerpo, lo de fuera y lo de dentro. Este gesto es a la vez trivial y portador de consecuencias potencialmente irreversibles. Incorporar un alimento es, tanto en el plano real como en el plano imaginário, incorporar todo o parte de sus propiedades: llegamos a ser lo que comemos. La incorporación funda la identidad".

Inspirando-nos nas palavras do autor, teríamos que ao consumir caracata, fazendo-a atravessar a fronteira entre o mundo e nosso corpo, coloca-se como imperativo assumir consequências potencialmente irreversíveis. Não se pode desconfiar de uma mulher – é uma premissa cultural -, mas se, por algum engano, entrar na comida algo estranho, o perigo é real e irreversível. Temos que imaginar e confiar que a mulher, dona de casa, sempre quer o bem dos seus membros e como ela é paciente e cuidadosa "por natureza", nada disso vai acontecer em nenhum momento.

limpeza_da_mandioca.jpgRemetendo à discussão sobre as razões e o lugar da mandioca na alimentação das famílias de Nampula, podemos ainda recorrer ao estudo de Garine (1987), sobre alimentação, culturas e sociedades, em que o autor salienta que o que mais as pessoas procuram para seu consumo é um alimento que proporcione sensação de saciedade. De acordo com esse autor, esta saciedade só é conseguida quando se consome um alimento que não vai contra seus princípios biológicos e culturais, garantindo, desta forma, sua reprodução social. Assim como a caracata pode ser acompanhada de molho feito de folhas de mandioca, também pode ser preparada de várias outras formas, crua, assada ou cozida.

Caracata é um alimento que, quando se tem algo decisivo para realizar, come-se para buscar inspiração. É motivo para dizer que a terra, o céu, as pessoas vivas e os espíritos dos seus ancestrais estão em festa. Porque gera certeza de que em qualquer atividade a ser realizada tudo vai correr bem: porque se comeu caracata.

colheita_da_mandioca.jpgO prato exprime uma sensação de conforto e prazer, equilíbrio emocional e físico para executar qualquer atividade, mesmo que não se coma nada ao amanhecer. É como beber água depois de muitas horas de sede, a sensação é forte. Tanto que a caracata pode ser consumida em qualquer período do dia, de manhã, no matabicho (ou café-da-manhã), no almoço e durante a noite, no jantar. Quem receber alguma visita e servir caracata estará desejando boas-vindas, além de ser o melhor acolhimento que se faz para o visitante. Como o visitante provavelmente deve ter perdido energias durante a viagem, pode estar cansado tanto física como emocionalmente. Ao comer, o visitante fica forte, já pode fazer tudo o que quiser e que precise exercer força, como, por exemplo, pegar o caminho de volta para casa, tendo certeza de que vai chegar bem, saudável e bem-humorado.

Assim é que a caracata, feita a partir da mandioca, preparada pela mulher, é consumida em paz e tranquilidade. Proporciona a saciedade, o prazer de ter-se alimentado muito bem, biológica e culturalmente. Porque é símbolo de identidade para aquelas famílias.

mandioca_seca.jpgReferências

FISCHLER, Claude. El (h)omnívoro: el gusto, la cocina y el cuerpo. Barcelona: Anagrama, 1995.

GARINE, Igor de. Alimentação, culturas e sociedades. O Correio da Unesco, Brasília, v. 15, n. 7, p.4-7, 1987.

MIRASSE, Jone. O consumo de batata-doce de polpa alaranjada entre famílias rurais do nordeste de Moçambique: um estudo sobre percepções de comida e Segurança Alimentar na província de Nampula. 2010. 178f. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Rural) – Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010.

WOORTMANN, Ellen; WOORTMANN, Klaas. O trabalho da terra: a lógica e a simbólica da lavoura camponesa. Brasília: Universidade de Brasília, 1997.


* Jone Januário Mirasse

([email protected]) é Mestre em Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR/UFRGS), membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura . Agrônomo e Pesquisador do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM). Este artigo faz parte da pesquisa realizada para sua Dissertação de Mestrado.

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