Ações de valorização e salvaguarda de saberes e práticas indígenas

No Maciço de Baturité, uma das regiões mais altas e de clima mais ameno do Ceará, está situada a Terra Indígena do Povo Kanindé, no município de Aratuba. A paisagem montanhosa, de vegetação verde e úmida, frequentemente encoberta pela neblina, com suas ladeiras e caminhos íngremes modela e dita o ritmo do lugar. A Aldeia Fernandes abriga espaços sagrados para o Povo Kanindé e também de grande valor simbólico e cultural que fortalecem a transmissão dos conhecimentos tradicionais, como o Museu dos Kanindé de Aratuba, a Escola Indígena Manuel Francisco dos Santos e a sede da AIKA – Associação Indígena Kanindé de Aratuba

Foi com esse cenário e nesses espaços, fortalecendo vínculos intergeracionais e aprimorando processos de compartilhamento e aprendizagem coletiva, que se concentraram os encontros e atividades do projeto Território e Cultura Alimentar no Ceará junto ao Povo Kanindé de Aratuba. Uma iniciativa correalizada pela ASFB – Associação Slow Food Brasil e pelo Projeto São José (SDA/CE), com apoio da SEPINCE Secretaria dos Povos Indígenas do Ceará, com ações voltadas ao fortalecimento territorial por meio da salvaguarda dos modos de vida e da valorização do patrimônio cultural alimentar.

Com foco na conclusão das pesquisas para construção do Inventário Participativo da Cultura Alimentar do Povo Kanindé de Aratuba, a abordagem metodológica da ASFB envolveu nessa etapa final oficinas e vivências temáticas estruturadas em cinco eixos: história, memória e território; agricultura; caça e criação de animais; medicina tradicional; e culinária.

Entre as atividades, uma Oficina de Cordel, ministrada pelo professor Reginaldo, envolvendo estudantes do 6º e 7º ano da escola indígena e aproximando crianças e adolescentes dos saberes do território e das ferramentas de comunicação popular de forma criativa. Em outro momento, uma das guardiãs da biodiversidade local, Orlângela Kanindé, partilhou conhecimentos de modo lúdico, convidando pessoas vendadas à reconhecerem verduras, plantas medicinais e outros alimentos do território por meio do tato, do olfato e do paladar. Dialogando com esse exercício, Kélia Viana, educadora da equipe da ASFB, utilizou sons de animais e de elementos da natureza — como vento, água e fogo — reproduzidos em fones de ouvido, estimulando os participantes à escuta atenta, conectando sensorialidade e aprendizagem.

O ponto alto das vivências foi no terreiro de Seo Cícero, onde uma cozinha com fogões a lenha foi montada e todos desciam caminho abaixo, até uma frondosa mangueira central, levando alimentos e utensílios para partilhar. Entre uma receita e outra surgiam memórias, dicas e modos de preparo.“O milho, a fava e o feijão são a base da nossa cultura alimentar”, ressaltou Rildelene Kanindé, jovem liderança e articuladora local do projeto. O almoço coletivo teve sarrabulho, farofa de tripa, mexido de fava, pirão de fava com cuscuz e o tradicional muncunzá Kanindé. Foi um momento de celebração do trabalho em equipe e da cultura alimentar como prática viva.

Articulando os bens culturais identificados ao longo do processo de inventariamento, foi elaborada de forma participativa a proposta do Plano de Salvaguarda da Cultura Alimentar Kanindé de Aratuba. Entre as ameaças apontadas, destacou-se a falta de demarcação da terra indígena, que impacta diretamente a autonomia do povo para o cultivo dos alimentos, tanto para a subsistência das famílias quanto para a comercialização da produção.

Toda a programação no território foi organizada a partir do protagonismo dos jovens e troncos velhos que passaram pelo percurso formativo e integraram os grupos de inventariantes e de comunicação, sendo conduzidas com o apoio ativo das lideranças comunitárias. As atividades propiciaram um mergulho no cotidiano do Povo Kanindé de Aratuba, revelando a relação viva entre as pessoas, a terra, a cultura e o patrimônio alimentar.

O projeto “Território e Cultura Alimentar no Ceará” é uma correalização da ASFB Associação Slow Food do Brasil em parceria com a SDA/CE Secretaria de Desenvolvimento Agrário do Estado do Ceará, através do Projeto São José, com ações entre 2023 e 2025.

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