Terra Madre Day no Brasil convida: vamos olhar juntos para a fome.

O movimento internacional Slow Food vivencia esta semana a comemoração do Terra Madre Day com o tema “De Volta às Raízes: Alimentos e Comunidade”, no dia 10 de dezembro. Nosso convite para esta semana é de reflexão sobre o contexto atual no país, para que ações e mobilizações sociais sejam realizadas nos diversos territórios.

O Brasil vive atualmente um retrocesso em termos de políticas públicas. Em 2014, nós conseguimos sair do Mapa da Fome, marco mundialmente reconhecido por indicar uma caminhada rumo ao direito humano à alimentação adequada e saudável (DHAAS), e por, desde 2010, reconhecer a alimentação como um direito constitucional à população. Apesar de ainda existir a fome, havia deixado de ser um problema estrutural devido as políticas públicas e programas que estavam sendo implementados desde 2003, como o Fome Zero, por exemplo, e o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), instituído em 2006 pela Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional. No entanto, a partir de 2018 houve um desmonte de numerosos programas e políticas de diversas maneiras, dentre eles a diminuição crescente e considerável de recursos destinados a garantir o DHAAS.

A pandemia não pode ser usada como bengala, ou única vilã, pelo crescente cenário da fome vivido pelo país. As medidas tomadas pelo Governo desde 2015 têm colocado cada vez mais as pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional. O desemprego crescente, a falta de incentivo à agricultura familiar, a exploração de terra pela bancada ruralista, a liberação de 1378 novos agrotóxicos são apenas alguns dos fatores que contribuem para a desigualdade no acesso aos alimentos bons, limpos e justos e criam um cenário insustentável e de miséria. Além disso, propostas de leis em discussão dão margem para a privatização da água, o que poderá agravar ainda mais a desigualdade de acessos tanto para a alimentação adequada, quanto para a produção de alimentos no Brasil.

Este post foi elaborado com base no Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, publicado em 2021 pela Rede PenSSAN, como parte do projeto VigiSAN. A partir do inquérito, dados importantíssimos foram levantados e divulgados. Estes dados apontam que 9% da população vive em insegurança alimentar grave – o que significa pessoas ficando sem comer e passando fome. Ainda, segundo várias organizações que trabalham com SSAN, foi considerado que a realidade de 2020 apontou um retrocesso do Brasil para 2004, atingindo patamares como os daquele ano, e a fome voltou a ser um problema estrutural.

116,8 milhões de pessoas no país convivem com algum grau de insegurança alimentar e nutricional

O inquérito aponta que a fome tem lugar, e ela prevalece nas regiões Norte e Nordeste. Nestas regiões, menos da metade dos domicílios estão em condições de acesso pleno e regular aos alimentos, segundo o IBGE. A fome afeta principalmente as populações rurais, sejam elas de agricultores(as) familiares, quilombolas, indígenas ou ribeirinhos(as).

De 10,3 milhões em 2018, passou para 19,1 milhões de pessoas em 2020 em grau grave de insegurança alimentar. Significa que 19,1 milhões de pessoas estão convivendo com a fome no Brasil.

Nesse momento, convidamos a todas, todos e todes a lutarem pelo acesso universal a comida boa, limpa e justa; combaterem o desperdício alimentar; fazerem doações àqueles que estão em situação de insegurança alimentar e nutricional (INSAN); unirem-se a movimentos sociais que atendem a essas pessoas e somarem nessa luta. O movimento está aberto a todos que quiserem lutar conosco pelo direito humano à alimentação adequada, saudável, de valor cultural e social, boa, limpa e justa!

Para ler o Inquérito na íntegra, acesse: http://olheparaafome.com.br/VIGISAN_Inseguranca_alimentar.pdf

#SlowTogether #SlowFood #TerraMadreDay

Texto e imagem por: Karina Weber

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