Agricultura Familiar: moda, tendência e modernidade no meio rural

O governo brasileiro, através do Ministério da Saúde, apresentou a segunda edição do Guia Alimentar para a população brasileira. Recebido pela critica internacional como o melhor guia alimentar do mundo em que se valoriza o ato de comer, o ato de cozinhar e as escolhas conscientes dos consumidores, o Guia menciona diversas vezes a importância da agricultura familiar na produção de alimentos.

A agricultura familiar entra no Guia quase como uma recomendação a mais sobre a saúde da população adquirida pelos bons hábitos de comer que começa pelas boas maneiras de produzir e disponibilizar os alimentos. Ganha importância os alimentos in natura e minimamente processados como aqueles que vêm da roça e da agroindústria familiar, em lugar dos ultraprocessados das grandes indústrias alimentícias. Recomenda-se a diversificação dos alimentos em lugar da homogeneização, valorizando a produção agroecológica e a policultura em lugar das monoculturas, de reduzidas espécies, pobres em variedades e de uso intensivo de insumos químicos. Sugerem-se os alimentos frescos em lugar dos produtos congelados, o que implica na prioridade de cadeias curtas de produção. Reconhece o território rural como lugar de produção e de vida, ao valorizar os hábitos locais de produzir, cozinhar e comer.

Isso remete a pensar que a agricultura familiar está na moda e vinculada a tendências modernas de consumo de alimentos. Não é para menos em se tratando de alimentação humana, que além de uma questão de direito é também uma questão de cultura. Ou seja, o que vai diferenciar o ser humano dos porcos, dos frangos e do gado bovino em matéria de alimentação é que a humanidade certamente não vai sucumbir a uma dieta restrita a commodities agrícola, pobremente representada por derivados de alguns poucos produtos e de ainda menos variedades, obtidas por processos de transformações genéticas e uso intensivo de produtos químicos.

O ato de comer para a humanidade, sendo um ato cultural, aponta para a agricultura familiar a oportunidade de alcançar um reconhecimento definitivo por praticar uma agricultura moderna, baseada no uso intensivo de conhecimento e na valorização da biodiversidade, essencial para customizar nos territórios rurais de cada continente e de cada país, refeições que alimentam e proporcionam prazer.

No lugar de gerar divisas exclusivamente por exportações primárias poderá gerar e apropriar renda nos territórios rurais provenientes de dinâmicas econômicas locais associadas tanto a atividades agrícolas da produção, como a atividades não agrícolas, a exemplo de turismo, hotelaria, gastronomia, artesanato, além de indústrias de alimentos minimamente processados, implantadas localmente. Nessa contabilidade a redução dos gastos com saúde, assim como a redução dos custos ambientais poderá fechar a conta em favor de uma modernidade agrícola inteligente que aponta para um futuro decente e promissor para a humanidade. Afinal como diz o Guia, alimentação é mais que ingestão de nutrientes, traduzindo a forma poética que diz “a gente não quer só comida, a gente quer a vida”. Agricultura familiar é a produção de alimentos para a vida, como a vida quer.

Humberto Oliveira é Secretário de Desenvolvimento Territorial do Ministério do Desenvolvimento Agrário (SDT/MDA)

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