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Festa da Ostra na Comunidade Quilombola do Kaonge

Fomos recebidos pela comunidade remanescente de quilombo, que com os pés descalços no solo massapé, demonstravam o seu sentimento de pertencimento a essa terra, que um dia, foi palco da monocultura da cana-de-açúcar e da escravidão.

Hoje, a comunidade cultiva nessa terra, sua autonomia socioeconômica e cultural, onde a solidariedade e sustentabilidade são praticadas em suas produções agrícolas e atividades locais, como forma de resgate da memoria material e imaterial dos seus antepassados.

Dentro desses princípios, foi celebrada a Vl edição da Festa da ostra na comunidade Quilombola do Kaonge em Santiago do Iguape – distrito de Cachoeira, Bahia. Vestidos de túnicas branca com finos bordados e adornos africanos, a comunidade recepcionava os estudantes, professores, pesquisadores, movimentos sociais, pequenos produtores, chefes de cozinha ou simplesmente apreciadores da gastronomia local.

 A Festa da Ostra é uma realização comunitária, que teve como objetivo inicial, estimular parcerias comerciais para o escoamento da produção dos cultivadores de ostras. Porém, rapidamente, a comunidade percebeu a oportunidade para divulgar a sua cultura alimentar, revelando seus sabores, saberes e fazeres em sua culinária de raiz afrodescendente.

Desde então, a festa da ostra se tornou um evento ecogastronômico, promovendo a organização produtiva e saberes locais, em suas atividades da maricultura, ostreicultura, apicultura, produção de sementes e ervas medicinais da mata atlântica, além do beneficiamento, de maneira artesanal, da farinha e do azeite de dendê, este último, ainda feito no pilão. Essas são algumas das ações realizadas pelo Centro de Educação e Cultura do Vale do Iguape (CECVI), que vem atuando no fortalecimento do modo de vida quilombola do Iguape.

Para melhor conhecer as receitas dessas práticas, foram organizadas oficinas temáticas para o público, tendo como tema principal a “Educação ambiental para uma vida sustentável”, proporcionando rodas de prosa sobre a Educação no campo e quilombola; O turismo étnico de base comunitária, a história e culinária do quilombo na região do Recôncavo.

Em sequência a essa rica troca de conhecimentos, foi oferecido o Ajeum, título de origem africana designado para o almoço, ao meio-dia. Em uma longa mesa, foi servido nos tachos de barro, uma variedade de receitas como: moqueca de ostra, ostra com maxixe, ostra com mamão verde, ostra com chuchu, ostra com repolho, ostra com batatinha.

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As ostras eram acompanhadas de arroz branco, vatapá, quiabada e farofa. A outra opção eram ostras cruas ou na brasa.

Para participar do Ajeum, bastava ter “10 sururus” moeda local, vendida no Banco Solidário Quilombola do Iguape (BSQI). O uso da moeda sururu, nome adotado em virtude das marisqueiras locais, é uma pratica nas comunidades desde 20 de novembro de 2013, beneficiando a redistribuição e fortalecendo da economia local.

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A festa da ostra se tornou um evento ecogastronômico, graça a uma grande tradição que adotamos; a do trabalho coletivo, afirma a Sra. Juvani Nery. Para o preparo da festa, as comunidades Dendê, Kaonge, Engenho da Ponte, Engenho da Praia, Kalembá cultivaram as ostras. Já o azeite de dendê ficou nas mãos das comunidades Dendê, Kaonge, Kalembá. E como não podia faltar o quiabo, um dos ingrediente principais nas receitas quilombolas, as comunidades, Calolé, Engenho da Ponte, ficaram com a responsabilidade. 

Porém, na hora de cozinhar, todos se uniram “Minhas meninas, cortaram o quiabo toda a noite e agora estão aqui, servindo nossos pratos típicos com alegria”. Relata Juvani Nery, líder comunitária. “Aqui na comunidade temos e produzimos de tudo, menos a cana-de-açúcar, pois foi durante o auge do ouro branco, como era considerado na época, que morreram muitos dos nossos antepassados com a escravidão” lembra Ananias Viana, líder comunitário.

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O Ajeum foi acompanhado com a apresentação da cultura popular o “Nego fugido” onde musica, dança e teatro se misturam. Com os rostos pintados de carvão e a boca de vermelho, para representar a dor e sangue dos escravos, os quilombolas interpretaram com muita dramatização, a história de perseguição e captura dos escravos fujões, pelos caçadores. Esses, se vestiam com longas saias feitas da palha da folha da bananeira, que ajudava na camuflagem na mata. A Festa da Ostra terminou o dia com muita música e samba de roda dos grupos locais.

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 A comunidade disponibilizou um condutor local, para mediação cultural do roteiro “Rota da Liberdade” que envolve visitas as comunidades locais: Kaonge, São Francisco do Paraguaçu, Dendê, Engenho da Ponte, Engenho da Praia, Camboas de pau e cultivo de ostra. Esses roteiros são desenvolvidos por um grupo de jovens quilombolas, que adotam os princípios do turismo étnico de base comunitária e visa estabelecer um contato direto com os aspectos culturais e históricos que cercam os quilombos do Recôncavo.

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A comunidade quilombola do Kaonge é a mais nova comunidade de alimento no Nordeste do Brasil e estará participando pela primeira vez do Terra Madre.

 

Texto: Revecca Cazenave-Tapie, cujo, não seria realizado sem as trocas de conhecimentos com Ananias Viana, líder comunitário do Kaonge. Fotos: Revecca C. Tapie 

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