A Terra Indígena do Povo Kanindé, no município de Aratuba, recebeu a equipe da ASFB – Associação Slow Food Brasil formada por educadoras e comunicadoras para dinamização das ações do projeto Território e Cultura Alimentar no Ceará, correalizado em conjunto com o Projeto São José, visando a valorização do patrimônio cultural, fortalecimento da identidade territorial e salvaguarda da sociobiodiversidade.
A Aldeia Fernandes fica na região do Maciço de Baturité e nela está localizada a sede da AIKA – Associação Indígena Kanindé de Aratuba, que cedeu o espaço para realização da maioria dos encontros, entre os quais o “Momento Confluências”, uma roda de conversas para apresentação e balizamento institucional, que contou com a presença de representantes da Secretaria de Desenvolvimento Agrário do Ceará – SDA/CE e das principais lideranças locais. Durante o encontro, a historiadora Gabriella Pieroni, da equipe da Associação Slow Food do Brasil, destacou a relevância dessa confluência como instrumento de transformação social: “ao unir povos indígenas, poder público e sociedade civil, o projeto mostra que é possível construir caminhos de respeito à diversidade, salvaguarda do patrimônio cultural e proteção dos territórios tradicionais a partir da alimentação”.
A Formação de Inventariantes Culturais, etapa fundamental para a construção do Inventário Participativo da Cultura Alimentar Kanindé de Aratuba, reuniu jovens, lideranças e troncos velhos da comunidade a fim de pesquisar, registrar e salvaguardar seus saberes e práticas alimentares. Cícero Pereira, vice-presidente da AIKA, destacou que “foi feita uma seleção para definir quem da comunidade participa das atividades”, buscando garantir que, mesmo com a agenda comunitária movimentada, as pessoas permaneçam envolvidas e atuantes no processo do início ao fim.
Na sequência de encontros formativos, o Percurso em Comunicação Popular, voltado principalmente para a juventude indígena, abordou conceitos como “comunicação”, “mídias”, “BigTechs” e “EtnoMídia”, com a exibição de conteúdos produzidos por artistas e comunicadores indígenas de diversas regiões do Brasil. A atividade buscou fortalecer as estratégias de comunicação, com a partilha de técnicas de captação e enquadramentos, exemplificando as formas de linguagem e formatos de comunicar a partir das plataformas online, ampliando a autonomia do povo Kanindé na produção audiovisual e o protagonismo na circulação de narrativas sobre seu território, sua cultura e seus modos de vida.
Organizados por temas de pesquisa — História, memória e território; Culinária; Caça e criação de animais; Medicina tradicional; e Agricultura — inventariantes culturais e jovens comunicadores percorreram o território realizando entrevistas e visitas aos espaços de referência comunitária. Ocorreram dinâmicas e experimentações audiovisuais com aparelhos celulares e câmeras fotográficas DSLR e a utilização de equipamentos como tripés, gravadores e microfones. Parte dos conteúdos produzidos foram compartilhados nas redes sociais e outros vão se somar aos registros captados pela equipe da ASFB para o vídeo documentário e a publicação do inventário, previstos como resultados finais do projeto.
A culminância dessa primeira etapa de atividades presenciais reuniu comunicadores e inventariantes no terreiro em torno da casa de Seo Cicero, sob à sombra de uma frondosa mangueira, onde foi possível realizar registros de saberes e práticas, a exemplo de como pilar café e fazer uso medicinal de insetos, especificamente cupins, para cura física. A etapa de conclusão das ações no território visa envolver a comunidade em vivências de aprofundamento das pesquisas para construção do inventário e a elaboração do Plano de Salvaguarda dos Bens Naturais e da Cultura Alimentar do povo Kanindé de Aratuba.
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O projeto “Território e Cultura Alimentar no Ceará” é uma correalização da ASFB Associação Slow Food do Brasil em parceria com a SDA/CE Secretaria de Desenvolvimento Agrário do Estado do Ceará, através do Projeto São José, com ações entre 2023 e 2025.

