Reencontro com as raízes africanas da culinária mineira – dia 1

Encontro promovido pelo Slow Food Beagá no Quilombo Chacrinha dos Pretos em Belo Vale – MG

Fogão à lenha do restaurante Sabor de Quilombo. Foto: Lucas Mourão/Jaca Verde PANC

Durante os dias 20 e 21 de novembro de 2021 organizamos enquanto comunidade do Slow Food Beagá uma vivência incrível no fim de semana da Consciência Negra onde pudemos revisitar um pouco das raízes africanas na nossa rica e diversa culinária mineira.   Ação com objetivo de estreitar mais nossas relações com nossas comunidades tradicionais e aprofundar no conhecimento de suas culturas alimentares.

No sábado, primeira etapa da ação, fomos cerca de 10 membros do Slow Beagá conhecer a comunidade quilombola Chacrinha dos Pretos, situada no município de Belo Vale, a cerca de 80 km da capital Belo Horizonte. Recepcionados pela líder do quilombo, Tuquinha, pudemos conhecer um pouco mais da história do local e das pessoas, bem como ver e provar das plantas cultivadas no quintal, e preparadas no seu restaurante, Sabor de Quilombo, que mantém viva a tradição culinária local. Tuquinha nos contou um pouco sobre o territorio, suas conquistas e lutas e nos apresentou sua horta, diversificada em cores, sabores e cheiros. Segundo seu relato foi um longo processo de reconhecimento enquanto quilombolas e das dos desafios e conquistas da comunidade na afirmação de sua identidade, valorização cultural e melhoria da infra-estrutura que liga a Chacrinha à cidade de Belo Vale.

Após o café, que teve rosquinhas, biscoitos de polvilho como quitandas, saímos para visitar o quintal de Tuquinha, onde pudemos ver diversas plantas usadas na alimentação do dia a dia, no restaurante e também plantas usadas como remédio. Colhemos algumas delas para o almoço: cebolas, cebolinha, salsinha, etc.

Visita à horta de Tuquinha, conhecendo as PANC do quintal
Membros da comunidade Slow Food Beagá no quilombo junto da Tuquinha, líder do Chacrinha

Conhecemos a saborosa (Hylocereus setaceus), que é uma cactácea parente da pitaya e tem suas partes verdes jovens consumidas refogadas, e o carapiá (Eryngium sp.), subarbusto com margem que parece uma serrinha, e tem sua parte grossa da base usada da mesma forma que outras hortaliças, refogada, com sabor suave e saboroso, que lembra cenoura.

Também saboreamos delicioso almoço, típico das cozinhas afro-brasileiras, feito no fogão à lenha, com arroz, feijão, angu, frango com quiabo, macarronada, carapiá, taioba e couve refogadas. Após o almoço, em uma breve caminhada vimos pela comunidade muitos quintais ricos em diversidade, com pomares cheios de frutas: jabuticabas, acerolas, mangas…e também várias PANC, como por exemplo a bertalha coração, maria gondó, hibisco e a urtiga, que em Minas é conhecida por cansanção.

Restaurante Sabor de Quilombo

Após o almoço, andamos e conhecemos as ruínas em torno do Quilombo, pela linha do trem, ouvindo seu apito levando nossa riqueza mineral, conversamos com os quilombolas atenciosos e felizes com a nossa visita, que nos modificou e ainda nos trouxe boas reflexões, trocas de mudas e receitas. Depois, fizemos breve visita ao Museu dos Escravos, na cidade, que trouxe indignação a muitos de nós: o senhor de engenho ainda nos recebe na porta e nossa história é retratada ao fundo, somente com objetos de tortura, de sofrimento. Acreditamos que essa realidade precisa ser somada a outros feitos, vários deles ainda negados pela história. Nossas raízes são sustentadas por essas histórias, daí vem nossa resistência que após tantos anos ainda se faz presente e nos acolhe com afeto, sabores e saberes.

O objetivo dessa ação foi de nos aproximar, visando alinhar forças junto a essas comunidades tradicionais, aprofundando nosso conhecimento através dessas culturas diversas, suas histórias, alimentos e cultivos, mirando seu protagonismo. Conhecer de perto uma destas comunidades foi uma oportunidade única de estreitar relações com quem produz e consome alimentos de verdade, e aprender mais sobre história e tradições.

Ficou curioso pra conhecer a Comunidade Chacrinha dos Pretos? Segue abaixo o contato para maiores informações:

Tuquinha (Restaurante Sabor de Quilombo): (31) 99872-0276

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