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Outro jantar

abobora.jpgBem, ontem fiz um pouco de iogurte caseiro. E ele estava com uma cara tão convidativa que resolvi usá-lo no prato do jantar de hoje. Coloquei manteiga na frigideira e despejei o iogurte. Deixei refogar bem e adicionei o sal, pouco. Então, coloquei uma berinjela refogada, na verdade um antepasto de berinjela em que ela refogou no alho, cebola, pimentão vermelho e pimenta picante. Depois coloquei um pouco de corações de alcachofra picados. Cozinhou levemente e então despejei a massa que cozinhei. Para terminar, queijo parmesão ralado na hora. Não dá para descrever. O iogurte deu um toque macio e azedinho, levemente azedinho, ao prato, melhor do que seria um creme de leite. Leve, muito leve. Quase primaveril. Mas perfeito para uma taça de vinho carmenère.

Você vai dizer: de novo massa? Pois é. Mas o que você combinaria com um molho desses? Talvez um filé com purê de batatas, ou podia ter sido um risoni – aquele macarrão com cara de arroz – o que não deixava de ser massa também. Um arroz integral só cozido na água podia ter ficado bem temperado com esse molho. O problema é o mesmo: nunca me lembro de trazer ingredientes para casa. E também não como carnes.

Quando você não come carnes tem que ter uma variedade maior de opções para o jantar porque não dá para comer massa toda noite. E se for massa, tem que combinar os elementos para não fazer sempre a mesma coisa: molho de tomate! Não. Há que variar bem os ingredientes sem perder os aromas jamais.

Justo eu que falo tanto em simplicidade estou aqui me esbaldando com vinho e massa ao molho de iogurte rústico, berinjela e coração de alcachofra. Na época da alcachofra e do aspargo é fácil encontrá-los por aqui. Terra de clima frio. É perfeito. É maravilhoso. A alcachofra tem aquele gosto meio amargo e adocicado depois. Inteira e recheada, com tomates, manjericões, pão torrado esfarelado e queijo parmesão. Ou só o fundo assado no creme de leite. E os aspargos? Na frigideira, simples simples simples, no azeite ou manteiga e só. Tão frescos e tão macios que você não vai deixar de comê-los.

pimentas.jpgComer é verdadeiramente resgatar valores culturais. São pratos com ingredientes da terra. Ou são pratos que reportam a paisagens distantes, diferentes, diversas. São aromas do quintal transportados para a cozinha, coentros, salsas, hortelãs, alfavacas, ou são aromas de tão longe que têm nomes esquisitos, currys, masalas, harissas. Tudo para perfumar e transformar os mais tímidos dos legumes em iguarias. Simples assim.

Manteiga na pipoca, quem não gosta? Azeite extra virgem com sal e vinagre de vinho tinto com pão italiano bem cascorento, nunca provou? Um sal mais crocante, nada de nada refinado, na salada de folhas verdes, frescas, pronto, já fez a diferença. Um chá de limão e canela ou um leite quente adoçado com geléia de laranja com gengibre, reconfortante, quase um carinho de mãe. Tudo muito simples, tudo muito sofisticado, tudo um sorriso leve no rosto, tudo divertido. A noite passa e você nem sente falta de televisão, de telefone tocando, de cachorro pulando. Dar-se o que comer, é fundamental como tomar banho ou escovar os dentes. É mais que civilizado, é dar-se de graça, como as flores. Fazer graça. A vida vale as risadas que a gente dá, mesmo quando não há ninguém para compartilhá-las.


* Fernanda Luiza Kurebayashi vive em Gonçalves (MG), onde se dedica à gastronomia vegetariana com produtos orgânicos.

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