Participação do GT Queijos no V Simpósio de Queijos Artesanais

Entre 14 e 17 de outubro 2025 realizou-se o V Simpósio de Queijos Artesanais do Brasil, em Brasília, que contou com a participação do GT dos Queijos Slow Food. Essa participação foi especialmente importante para o nosso grupo porque foi na primeira edição do evento, em 2011, em Fortaleza, que o GT dos Queijos se constituiu após ter participado ativamente da organização do evento e da mobilização de produtores das várias regiões queijeiras do país, de norte a sul, que lá estiveram presentes. Na sequência participamos na segunda edição do evento, em novembro de 2013, em Porto Alegre, onde novamente reunimos produtores de várias regiões, com quem fizemos uma importante conversa de avaliação da produção artesanal de queijos. Depois disso houve alguma descontinuidade na organização do evento e na nossa participação, que foi retomada agora em 2025.

O V Simpósio, que foi realizado pela FUP/CEGAFI/UNB,  reuniu pesquisadores do Brasil, América Latina e França, assim como produtores de queijos artesanais, consumidores e estudantes. Foram abordados os diversos temas envolvidos na produção artesanal de queijos, desde questões mais técnicas referentes ao manejo, microbiologia, risco sanitário e legislação, às questões socioeconômicas, ambientais e culturais: acesso a mercados, informalidade, sustentabilidade econômica e ambiental, inclusão produtiva, certificações, tradição, qualidade e origem.

O GT dos Queijos marcou sua presença no evento através da participação individual de três de seus membros como palestrantes convidados e uma apresentação de trabalho. Além disso, o GT fez uma apresentação sobre os resultados do projeto Ações de Salvaguarda dos Modos de Fazer Queijos Artesanal de Minas Gerais, financiado pelo IPHAN e realizado de 2015 a 2018 nas três regiões queijeiras então contempladas pelo registro como patrimônio imaterial, Serra da Canastra, Alto Paranaíba/Salitre e Serro.

O evento mostrou um amplo painel de pesquisas de alta qualidade, que trouxeram discussões importantes sobre os temas abordados dentro das diversas áreas do conhecimento. Em contraponto ao pensamento acadêmico, as falas de produtores de perfis diversos foram fundamentais, na medida em que são eles os principais atores no processo e principais testemunhos da realidade da produção artesanal.

A diversidade de pontos de vista, muito positiva, refletiu a complexidade e as indefinições que envolvem a produção artesanal de queijos de leite cru, desde a própria imprecisão do termo artesanal nas legislações específicas, até escala da produção artesanal, parâmetros microbiológicos, segurança do alimento, sustentabilidade socioeconômica e ambiental tendo como base e foco esta produção.

O evento foi concluído com a elaboração da belíssima Carta dos Produtores de Queijo Artesanal, elaborada pelos próprios produtores, e que publicamos aqui. Além disso, apontou-se necessidade de se constituir uma comissão reunindo diversas instituições/organizações com o objetivo de dar continuidade e organizar os próximos simpósios, de modo a garantir sua continuidade, definir local, conteúdos e direcionamentos, e promover uma organização coletiva dos próximos eventos.

Texto da CARTA:

Brasília 17 de outubro de 2025

Nós, produtores de queijo artesanal, escrevemos esta carta com mesmas mãos que moldam o leite em história, com o coração de quem acorda antes do sol e com o orgulho de ver o campo resistindo, dia após dia.

Vivemos os desafios de uma vida que nem sempre é leve. A sucessão familiar nos preocupa — muitos jovens buscam outros caminhos, e ficamos tentando mostrar que o sabor do futuro também pode nascer na roça. A mão de obra escasseia, os caminhos são longos e, às vezes, cheios de buracos como as estradas que ligam nossas propriedades às cidades e que simbolizam o quanto ainda precisamos avançar.

A burocracia também pesa. O caminho até um selo é lento, cheio de formulários e exigências que parecem esquecer que por trás de cada queijo há pessoas, e não apenas números. Mas seguimos firmes, porque acreditamos que o artesanal merece o espaço que conquistou, com trabalho limpo, com rastreabilidade e com o sabor da verdade.

Apesar de tudo, os bons ventos sopram. O turismo rural floresce, trazendo gente que quer ver de perto o que é feito com amor e paciência. As medalhas e prêmios que chegam até as pequenas queijarias não são apenas reconhecimentos, são símbolos de resistência, de identidade e de pertencimento.

O que nos move é o mesmo que movia nossos pais e avós: a paixão pelo leite, pelo campo e pela tradição queijeira. Usamos ingredientes simples, naturais, mas o que realmente dá sabor ao queijo é o tempo, o tempo da maturação e o tempo de quem aprende, erra e recomeça.

Hoje, o queijo artesanal brasileiro é mais do que um alimento. É uma expressão cultural, um elo entre gerações, um pedacinho da nossa história que derrete na boca e aquece o coração.

Seguimos acreditando que o futuro será mais gentil com quem produz com as próprias mãos. Que o Estado olhará para nós com sensibilidade, que as estradas se abrirão, que os jovens voltarão a enxergar no campo um projeto de vida.

Porque o queijo artesanal é isso: um ato de coragem, um gesto de amor e uma forma de manter viva a alma do Brasil.

Com gratidão e esperança,

Os Produtores de Queijo Artesanal.

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